SEXTA POSTAGEM

Pegaram-me de surpresa quando me chamaram para ler meus textos. Não esperava que me chamassem para esse tipo de encontro. Eu, que cultivo silêncio, reclusão e esquivança – proximidade sem intimidades. Escrever postagens prega verdadeiras peças, no caso, endereçadas exatamente a quem escreve. Tratam-me com cuidado enquanto me ouvem, me lêem e concluem. São os rituais de reconhecimento, admito, convenções de localização. Então tá. Mas quando escrevo quero mesmo é crescer, tornar-me gigantesco, assenhorear-me de mim. Pois a escrita é para mim sempre descomunal, sempre senhorial. Mesmo quando sutil e discreta. Ao escrever, perco pudor e ética e me instalo no trono das perversões mais severas. Daí que a escrita é perigosa para mim, pois só escrevo quando não tenho certeza exata do que quero. Como agora. Você ri, pois sabe o que é ser escravo da escrita, em um misto de certeza e incerteza, quando ela nos enlaça em traços, ritos, vícios, sevícias várias. A escrita trai consigo toda sorte de prazer e angústia. Então não entendi, e não entendo. Mas encarei como aventura, dessas que cheiram àquilo que não se controla e a que se adere por pura falta de escrúpulos consigo mesmo. Preparei-me, no entanto, te escrevendo, ainda mais do que de costume, minando meus textos com pequenas bombas que só eu acreditava explodiriam, pois as armadilhas eram de sonhos estritamente pessoais. Não explodiram. Nunca explodem. Um pouco por medo seu. Um pouco por culpa minha. Sim. Divido com você, sempre dividirei com você responsabilidades que venham a aparecer aqui, pois metade do que aqui acontece pertence a você. Certo, isto não é uma operação matemática, muito menos metafísica, mas é uma operação de sujeitos de entram no jogo do desejo e da memória que chamamos escrever e ler. Por isso me preparei te escrevendo, te escrevendo e te escrevendo, porque nunca se sabe, enquanto se escreve, quem escreve e quem lê. E quero você ao meu lado enquanto embarco nessa viagem de indeterminação. Como me escrever, me inscrever, me fixar, me talhar e ao mesmo tempo morrer? Morrer justamente por isso, você me diz, respondendo o que eu não queria, transformando-me do que escreve no que lê. Ler meus próprios escritos, então, é morrer. Como entrar nesse jogo de vida e morte, escrita e leitura? Tarde demais. Retiro-me para descansar.
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