QUINTA POSTAGEM

Nós sabemos como sou educado no trato diário, tímido, até. Você me conhece, me lê há anos. Como faz agora. Conhecemos também minhas limitações com a intimidade, impossível para mim sob um certo ângulo. Talvez queira nos preservar, a mim e a você, do que ela é capaz de trazer em falsidade, ciúme, sofrimento, soberba. Tento tomar cuidado com a minha saúde. Uma frágil saúde irresistível, e não falo de organismo, saúde física, atlética. Prefiro a delicadeza da educação, despida de qualquer tendência a intimidar. Intimidade em demasia me sufoca. Tento respirar delicadeza sempre que te escrevo. Respirar com a ponta dos dedos. Estranho, não? O lugar do toque, do carinho e do cumprimento. Lugar também da acusação. Lugar de vida e morte possíveis. Como você vive agora? Como você quer viver? Se a escrita é ao mesmo tempo veneno e remédio, posso te dizer que, de um lado, tenho obrigações com a escrita que me levam a ser linear, analítico, abstrato mesmo; de outro lado, os materiais de vôo que experimento são modelados nela, circulares, sintéticos, corporais. Daí me sentir com bastante freqüência como um funâmbulo. Gosto dessa palavra. E você? Essas postagens, por exemplo, são escritas como lei, mas como lei alternativa, nosso código semi-aberto, nossa única pena. Escrevemos ambos com ela. Vamos juntos, passo a passo, traço a traço. Por momentos como esse é que o trabalho vem como veneno. Mas consigo retomar o fôlego. Tenho pensado muito no trabalho, nos seus significados para mim, nas formas que o uso para chegar a você e alcançar algum tipo de saúde, sem fazer de você simples fantasma a rondar minhas obsessões. Hoje, por exemplo, passei a manhã com meu filho, o que não fazia há tempos. Brincamos a valer. Mas ainda tenho muito a aprender sobre infância. Você já me disse isso. Lembra? Ainda não sei escrever como filho. Engraçado, queria dizer escrever ‘com meu filho’. Eis, então: gaguejar com ele, atropelar palavras como ele, voar em direção à próxima frase, à próxima palavra, ao próximo som e não olhar para trás, não reescrever jamais, sem dever explicações. Não deveria nem a mim mesmo. Você me aguarda nessa empreitada? Você se agrada com essa empreitada que não poderá seguir com você, pois é viagem radicalmente pessoal? O que costumo fazer é o oposto disso. Veneno e remédio caminham lado a lado em mim. E crianças não necessitam de venenos nem de remédio, não necessitam da memória que a escrita fixa, não necessitam de nada além dos seus corpos para viver.
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