TERCEIRA POSTAGEM

Espero a oportunidade de te rever. É estranho como essas postagens servem para criar um clima de proximidade que nunca houve pessoalmente. Gosto disso. Não intimidade, mas proximidade. Gosto. E isso, parece-me, toda escrita é capaz de promover: traço de união, vida hifenizada. A proximidade com a escrita de alguém é a aproximação efetiva com o que há de mais real nesse alguém. Relação atualizada. Quando escrevo uma postagem ou quando escrevo um texto para uma revista ou livro, a sensação de realidade é a mesma que sinto quando escrevo algo na minha própria cabeça. Ou quando caminho pela rua. Ou sonho. Algo existe naquele instante. E este sonho da escrita é capaz de mudar o mundo. Cá entre nós, não me considere delirante, mas sinto que mudamos enquanto escrevemos. Não uma mudança na lógica de nossas vidas, mas uma espécie de programação de computadores, que possuem suas lógicas próprias, no entanto são reprogramáveis na execução. Mudamos nossas perspectivas. Mudamos de lugares. Mudamos nós mesmos. Mudamos. E continuamos humanos. Simplesmente. Simplesmente. Lembro-me de vinte e seis anos atrás. E olho para hoje. Cifra e analogia. Você me entende? Olha – digo, lê –, de tanto escrever, de tanto riscar no papel ou postar textos como garrafas no mar-oceano do século XXI, de tanto me colocar – mesmo quando não me coloco – em papel, me reprogramei, nos reprogramei. Peço de novo, não me considere delirante, pois, se o fizer, perderei o que de mais importante tenho agora para permanecer assim, de pé na linha, isto é, você. Os nomes de __________, _________ e ____________, por exemplo, não os tenho como ídolos literários. Seria essa a minha forma de protestantismo, digamos assim. No entanto, suas escritas adquiriram para mim um grau de fetiche. Um protestantismo animista, você me diz, sorrindo ironicamente. Deus não seria desvelado pela escrita, como na tradição cristã das Escrituras, mas seria a própria escrita. Você entende o que quero dizer? Entende? Sinto isso de maneira muito forte, por isso escrevo agora, para que me leia. Mas não me peça para te explicar tudo de outra maneira ou em voz alta. Não consigo. Acho que não. Acho. A escrita é uma máscara. Simulação. Já escrevi um poema sobre isso, conhece? E você? O que escreve? Ando interrogativo. Mas escrever é pouco assim, perguntar e afirmar. Ninguém escreve para responder. Quem responde por escrito não escreve, é escrito. E cabe ainda perguntar outra vez: quem escreve? quem lê? Ontem foi dia de ensaio. Escritura em voz alta, como gosto de pensar. Uma poética da voz. Espero a oportunidade de te rever, pois gosto de você.
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