MURILO MENDES

Essa vai para o Gustavo “cozinha do cão” Rios, que é fã do Murilo Mendes:

Microdefinição do autor

(A)

Sinto-me compelido ao trabalho literário:

pelo desejo de suprir lacunas da vida real; pela minha teimosia em rejeitar as “avances” da morte (tolice: como se ela usasse o verbo adiar); pela falta de tempo e de ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania – manifesta ou súbdola; à guerra, maior ou menor; pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade; pelo meu dom de assimilar e fundir elementos díspares; pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes; receio que outros governos excluídos da minha lista julguem que os admiro, coisa absurda; porque sou traumatizado pela precipitação diária dos fatos internacionais; por ter visto Nijinski dançar; pelo meu apoio ao ecumenismo, e não somente o religioso; por manejar uma caneta que, desacompanhando minha idéia, não consegue viajar à velocidade de mil quilômetros horários; pelo meu ódio fisicocerebral ao fascismo, ao nazismo e suas ramificações; pela preferência a Aliocha a Ivan e Dimitri Karamazov; porque dentro de mim discutem um mineiro, um grego, um hebreu, um indiano, um cristão péssimo, relaxado, um socialista amador; porque não separo Apolo de Dionísio; por haver começado no início da adolescência a leitura de Cesário Verde, Racine e Baudelaire; por julgar os textos tão importantes quanto os testículos; por sofrer diante da enorme confusão do mundo atual, que torna Kafka um satélite da Condessa de Séguir; pela minha tristeza em não poder conversar esquimaus e mongóis; pela notícia de que Deus, diante da burrice e crueldade soltas, demitiu-se do cargo de administrador dos negócios dos homens; pelo charme operante das cabeleirosas e pernilongas, das sexys a jato e das menos sexys a tílburi; pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst; pela decisão de Casemir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco; pela vizinhança através dos séculos, malgrtado as sucessivas técnicas e rupturas estilísticas, de Schönberg e Palestrina; pelo meu amor platônico às matemáticas; pelo dançado destino e as incríveis distrações da Saudade; pelo meu não vertical às propostas de determinados apoetas e impostas no sentido de liquidação da poesia; pelas minhas remotas e atuais viagens ao cinematógrafo, palavra do tempo da infância; porque temo o dilúvio de excrementos, a bomba atômica, a desagragação das galáxias, a explosão da vesícula divina, o julgamento universal; porque através do lirismo propendo à geometria.

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