OS CADERNOS ESCRITOS DE AL BERTO

25 de fevereiro
caminhar no deserto, reencontrar a magia das palavras e usá-la com maior ou menor inocência, como se a usássemos pela primeira vez, como se acabássemos de as desenterrar das areias. as palavras, esses oásis envelhecidos que me revestem o corpo como um trapo que sempre me tem pertencido.

confesso que sou um superviciado de palavras, outros são-no de heroína ou barbitúricos. na verdade passei bastante anos ingerindo speeds e escrevendo. alinhava palavras, rasgava-as, voltava a escrevê-las obsessivamente. tudo o que possuía era uma resma de milhares de folhas de papel escritas à queima-roupa, noite após noite.

escrevia até romper o dia, até que os dedos me doessem e os tendões do pulso paralisassem. então, relia e rasgava. tinha a certeza de que não eram aquelas as palavras que aquelas não eram as palavras que me reflectiam. sabia que ainda não conseguira chegar às palavras que, mal as acabamos de escrever, se iluminam por dentro, ainda não atingira a visão clara das coisas silenciosas, o início, o outro imperceptível.

ingeria cada dia mais drogas, e a dado momento tive a visão do que deve ter sido o primeiro homem a alinhavar, pela primeira vez, o seu nome. parei aterrorizado. ali estava, enfim, a morte da inocência, e a revelação do destino que me propunha cumprir: escrever, escrever, escrever.

a partir desse momento acumulei infindáveis cadernos escritos; era esta a única maneira de remediar o medo e de não possuir nada, e de ter possuído tudo.
[de O medo, p. 363]
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