A TEMERIDADE DE ESCREVER

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Sim, me sei culpado. Poderia reconhecer meus defeitos. Mas posso (e devo) reivindicar o prazer de uma febre, que é um sinal de escolha. Violenta e caótica, algumas vezes; delicada e suave, outras vezes. O afeto não significa uma negação de uma vida pública e politicamente interessada. Ao contrário, ele é a assunção de que se gera no trabalho escrito possíveis zonas de contato e fricções para a produção de novos personagens. A riqueza produzida em um trabalho desse tipo é radicalmente afetiva e ética, pois é no corpo que se produzem e localizam os afetos (aquilo que antes se chamava de alma ou espírito) e é com os corpos, com sua força muscular, que se fabrica a riqueza do trabalho. O corpo produz afeto, subjetividade, desejo, amor, ódio, repulsa e dor. O corpo erra.

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Esse é o destino que desenho para mim a cada linha que traço como inscrição rupestre em ligação mágica com o mundo, a cada pegada que imprimo nas calçadas que percorro real ou imaginariamente, pouco importa, a cada gesto que coreografo no espaço-tempo tridimensional do dia-a-dia. Eu e meu corpo-que-escreve viajamos quando nos sentamos e nos debruçamos sobre o teclado. Outrora era a escrivaninha que apoiava as desmedidas ambições desse meu corpo-que-escreve e que deseja de forma intensa. Hoje, diante do computador, meu corpo-que-escreve se coloca em uma relação com a escrita em incrível similaridade com aquela em que se colocava outrora, quando debruçado na escrivaninha, com o lápis. No computador, não seguro mais na ponta dos dedos o instrumento da escrita, porém ainda uso a ponta dos dedos para trabalhar – em maior ou menor velocidade, em maior ou menor força, harmonia e ritmo –, neste momento percutindo uma a uma as teclas sobre as quais as letras que as identificam já se apagaram. Essa percussão se mostra minimamente estruturada, seguindo uma seqüência não simplesmente linear, de modo a projetar no espaço da tela, defronte dos olhos, uma escrita cuja virtualidade induz o corpo a não fazer par dela com dedos, braços, tronco, pés, pernas, cabeça, pescoço e olhos. Enfim, da escrivaninha com papel, lápis e borracha ao computador, com teclado, monitor e CPU, pouco ou quase nada mudou nos caminhos do corpo-que-escreve. O que há são corpo, palavras e idéias, exatamente nessa ordem de importância. Assim a expressão ‘abro o caderno’ ganha ares de metáfora esnobe da qual não me livro por pura força de hábito, puro vício literário, desse mundo em que tratei de me emburrecer. Mas nada disso justificaria a expressão usada para abrir o texto. Ou melhor, ela se justifica a si própria. E não me explico, pois não há nada a explicar.

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