DOENTE (INÍCIO E FINAL DE UM CONTO)




edward hopper, night windows

O riso e a alegria me abandonam num dia assim. Quando deponho meus gestos mais ríspidos numa espécie de giro ao avesso do corpo. Minhas certezas mais absolutas se transformam no esplendor difuso dos pequenos atos, com seus fragmentos de brilho desesperado cobrindo os gastos azulejos do hospital em que me encontro. Olho para eles e me lembro como gosto de dançar. Começo pelo quarto, continuo sozinho pela sala, a música vindo da cozinha e preenchendo todo o antigo apartamento, braços erguidos e olhos em êxtase fora de órbita. Mas estou na cama do hospital. E me vem um cansaço que me impede de encher vagarosamente o peito e dizer estou vivo. Com a vida parecendo me debilitar, perco o fôlego aos poucos.

Nunca fumei, exceto na primeira adolescência, quando filava cigarros da minha mãe para treinar em frente ao espelho do banheiro modos de segurá-lo e fingir um charme que me sabia incapaz de possuir. Ao mesmo tempo pressinto que a insuficiência de fôlego que mal me sustenta diz respeito a um tipo qualquer de estupor que os médicos se recusam a diagnosticar e às enfermeiras provoca atitudes de indiferença. No entanto, ambos se negam a liberar-me sem que eu faça todos os exames necessários. Têm medo, ao que parece, de que minha saída do hospital me metamorfoseie ainda mais, no entanto também calam sobre isso.

Duas semanas internado, a vitalidade física se esvaindo por entre as molas do colchão, as luzes brancas rebatendo o que me resta de cor na tez, o cheiro de éter e álcool anulando qualquer sensibilidade que poderia permanecer em meu olfato, o entra-e-sai para exames arrastando por baixo da porta do quarto todas as certezas que eu poderia ainda possuir.

Um dia repentinamente entra no quarto o chefe da equipe médica que me atende. Antes de se apresentar já exibe todos os sinais da sua posição cuidadosamente dispostos ao olhar alheio. Cabelos penteados para trás com um brilhante e cheiroso gel, barba milimetricamente escanhoada, o ar fresco, como o de quem acabou de tomar banho ali mesmo no corredor, na porta ao lado, sapato italiano preto engraxadíssimo, refletindo as luzes do teto sob um jaleco virginal discretamente bordado com seu nome em dourado e uma gravata de seda azul com detalhes prateados. Sua saúde e autoconfiança contrastam com a minha aparência esfrangalhada, às dezessete horas, após dias de repetidos exames que me dissecam alma e corpo.

(…)

No quarto de hospital tudo isso me é um presente muito concreto. E me aventa um outro tipo de experiência, uma estranheza sub-reptícia, uma forte sudorese. Talvez por isso abandone o emprego e me tranque em casa como uma espécie de último soldado, solitário no bunker de meus desejos e ambições mais entranhados. Talvez por isso tenho reduzido meus livros e discos a praticamente nada, àquilo que me enche de verdadeira emoção e faz o corpo suave, suave. Talvez por isso dê baixa do hospital, entre tonturas e calafrios, doente de um tudo que é nada, doente de emoção e de vida. Talvez porque tudo isso já pertença a um outro país, a um outro mundo, a uma outra vida que eu agora abandono, ou a que nunca acedera, por força de uma verdade ainda irrealizada.

Assombrado por mim mesmo, por meu corpo e por minha imaginação, desembarco do hospital na cidade onde nasci. Estou magro, como pouco, mudo a máscara que carrego durante os últimos anos e parto para um tipo de plano que possa provocar bons encontros na fina palma da minha mão. Aos poucos, troco também os números de meus documentos por outros tipos de papéis, mais leves e fáceis de serem dispensados, troco de nome, aparência, endereço, desejo, amor, natureza, identidade.

E assim, ah… e assim, descobri que é assim que o riso arrasta, a dança arrisca, a alegria aprova, a morte foge, o dia canta e o corpo muda.

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