UM RETRATO DE E UM RETRATO POR CAMÕES

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Destaco alguns dos motivos pelos quais este soneto do Camões sempre me fascinou:

1) A enumeração quase nominalista das qualidades físicas e exteriores, tornadas essências interiores (atributos morais) da amada (os adjetivos, tão arriscados ao serem usados em profusão, aqui estão perfeitos);
2) essas qualidades tornadas essências revelando o nascimento da individualidade moderna por uma arte do “retrato”, muito comum entre os pintores dos séculos XVI e XVII;
3) a prudência e a discrição da amada, entre a simplicidade e naturalidade da “aurea mediocritas” e a ‘censura’ de certos gestos e movimentos (se ‘impostos’ pelo olhar do poeta para a amada ou se ‘auto-impostos’, pelas regras de cortesia; fica a questão).

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