CADERNOS MESTIÇOS (FRAGMENTOS)

Os fragmentos a seguir fazem parte de um projeto em andamento. O Self-portrait de Francis Bacon insinua alguns dos fantasmas que modulam os textos.

é tempo de purezas e proporções, coordenadas e simetrias, analogias e identidades – românticas ironias. para ele entretantos entremuitos entetodos entretudo restam as ruidosas ruínas, seus infindáveis cadernos mestiços.

***
mistura fundura dura mélange adúltera de tudo (cf. T. Corbière), mistura muito funda muito dura muito rude mais-do-que-madura, podre porção peco quinhão, mescla diversa de chicle com banana, mescla que dá em noves-fora em nada, em projeto de outrora projeto de não-ser projeto de mestiço projeto postiço, mistura adúltera de tudo, pura caliça rebarba resto rebite triste de quem não existe, presente desonesto passado funesto, mistura adúltera de banto-e-branco galego-preto-doutor-neto-filha-do-lar-de-mãe-de-santo-imigrante-caboco-capiarara, pois o mestiço quem é? o que é? nasceu barra prensada pai profunda brancura mãe negror em flor, qual mais dificultoso? qual mais nervoso? qual mais doloroso? qual mais qual menos, qual a condição que não a reencenação do amor de horas de estórias de memórias de (in)glórias de amor do verdadeiro amor da sala pra cozinha de amor do apaixonado amor do dentro acolher o fora de amor do exasperado amor do alto encantado com o baixo de amor do trágico amor do nobre que salva o bruto do amor e se amaram muito e contaram tudo e repetiram de cor as mais belas histórias de amor as mais cruas misturas adúlteras de amor com suas funduras suas negruras suas brancuras suas duras origens duplas.
***
atravesso, trago na face a duplicidade crescida como barba de dois dias: metade ausente na precariedade dos pêlos metade presente na visibilidade física dos pêlos, e como queima; faço dela meu signo astral meu ori meu anjo minha (in)certeza, a carnavalização do meu destino de palavras e silêncios de sofreguidão e paz de vizinhança e lonjura de nativo e estrangeiro, apesar das contradições apesar das inibições apesar das contorções, e justo por causa; se recusei ao dia e à noite qualquer proteção à tempestade do convívio com homens e mundos, quis também domar com mãos de ferro os encontros improváveis bons encontros maus encontros que por ventura dar-se-iam e se dão é certo; faço assim da arte de habitar fronteiras o lugar do meu ponto de vista minha dupla perspectiva única vida e morte entrelaçadas vidamorte; e como já escreveram toda perspectiva todo ponto de vista se dá no corpo e o meu é borrado turvo indeciso à difícil superfície da pele.
por isso tento aprender com o filho que tenho essa improvável arte de me movimentar sem me mexer – acelerar ou frear com a única saúde possível e fazer disso um poderoso ímã me movimentar minimamente com o máximo de contingente verdade me movimentar discretamente com o máximo de força e agressividade me movimentar espiritualmente com o corpo todo com a velocidade própria a um corpo até o limite do incorpóreo até o limite do que sou (in)capaz de sentir e dar sentido até a fronteira em que me encontre comigo mesmo mudado e outro pois de onde vim já é de onde parti; trata-se de modular a violência originária aquilo que me trouxe aonde estou o que me fez cruzar fronteiras e parar neste apartamento cercado por fantasmas que não mais assustam.
***
escrever para passar a limpo essa vida pobre e parca que trago nas roupas de retalhos.
a cidade em que nasci não me deu mapas para viver, precisei traçá-los na própria pele, riscá-los na carne, tatuá-los como destino.
o tempo corre lento e certo aos esgotos. escrever contra os esgotos, contra a miséria da vida pobre e parca nas roupas de retalhos; escrever para ir aonde ninguém jamais foi.
sou delicado e assumo a realidade de me tornar ainda mais veloz e violento, acelerar meus gestos mais íntimos e pessoais, me apossar deles a ponto de perdê-los, me apossar da terra reformada, atravessá-la de canto a canto, rasgar cercas, sinais, placas, avisos luminosos de não atravesse, pois não caminho mais.
sou um antílope na condição de presa fugindo, um leopardo acelerando minha máquina predadora contra a morte e a miséria e a fome dos retalhos, um zangão à beira do gozo à beira da morte à beira da abelha-rainha.
promiscuidades de escrita e vida.
seu ritmo é meu ritmo, sua música, a minha, sua hybris, minha hibridez.
mestiço impuro de pulso e impulso.
na hora das coisas suaves é fundamental haver ultrapassado a planta carnívora do medo para se alcançar a condição de luz na sua mais fulgurante desaparição.
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