PALIMPSESTOS FÍSICOS

Naive African Art Kalahari

ESQUECIMENTO E ESCRITA: DA AUSÊNCIA DE MÉTODO

Para Márcia Fraser
foi antes
quando a vida aparecia nua
eu vivia a alegria daqueles tempos
uma alegria enorme
eu a segurava forte entre os dentes
respirava e observava minha respiração
eu era um monge no alto de uma montanha
esquecendo-me que vivia
um escafandrista no fundo do oceano
medindo o mar com colherinhas de café
um ator de teatro kabuki
improvisando um texto milenar sobre a técnica do improviso
aprovava a minha vida com determinação e delicadeza
um grande sim
apontando para o futuro
e foi assim que desci da montanha
emergi das profundezas
saí do palco
sentindo-me preparado para cumprir os meus planos
viajar sem abandonar meu corpo
leve de gestos mínimos
continuava respirando e mantendo meus hábitos de filigranas
aos poucos, no entanto
fui deixando para trás a vida
concentrei-me em realizar outros planos
as novas realizações que traçava
e com isso as rotinas se atropelaram
fiquei perdido em meio ao tráfego
esperei o bonde para seguir viagem
mas não existem mais bondes
e os ônibus
levam multidões desgovernadas para um mesmo lugar
segui, então, a pé pela estreita calçada
e cheguei até esta casa onde moro acompanhado pelos cães
perdi meus dias, meus horários, meus diários
e hoje não quero mais
escrever para esquecer que um dia possuí uma vida nua
respirei o ar do mundo
e beijei o vento todas as manhãs
hoje quero tão só esquecer para escrever
como quem toma o primeiro gole
e se enamora do que apenas vive sob o céu
[do inédito Trabalhos do corpo]
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