VIEIRA DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Segue o fragmento de um ensaio que escrevi sobre a razão retórico-semântica do signo “espelho” em alguns sermões de Antonio Vieira, tendo por base o Sermão do demônio mudo.

Com o espelho transformamos. O espelho no Sermão do demônio mudo ganha atributos por proporção com as leis naturais de Deus. A luz divina da graça desce e ilumina esse espelho, tornando-o claríssimo para o puro ato do entendimento: “Deus Padre, desde o princípio sem princípio, de sua eternidade, produziu e está sempre produzindo, por ato de entendimento o Verbo divino, e o mesmo Verbo é um espelho de candidíssima luz, e sem mácula, no qual Deus vê a sua essência, a sua grandeza infinita e todos seus atributos”[i]. Antes de demônio, é o espelho Verbo divino iluminado para o ato de entendimento, ganhando também a proporção divina, tal e qual Vieira a enuncia agudamente no célebre Sermão de Nossa Senhora do Ó: “O Pai-Deus de tal maneira concebeu o Filho, Deus, que encerrou nele toda a sua essência em uma palavra; e a Mãe-Virgem de tal maneira concebeu ao Filho-Homem, que encerrou nele a mesma essência em uma letra: a palavra é o Verbo, a letra é o O”[ii]. A relação de analogia especular produz (descobre?) a seguinte proporção: o Ó está para a Virgem assim como o Verbo está para Deus (Ó:Virgem::Verbo:Deus). O Verbo divino assim faz do espelho doutrinário originalmente um círculo iluminado proporcional e perfeitíssimo, no qual razão, ordem e harmonia se conjugam para melhor se entender a verdade divina. Assim também os sermões do pregador Vieira, espiral discursiva e espelho analógico, que o tempo todo se vale das leis da repetição e da proporção medidas na correlação entre extremos para comandar sua tarefa persuasiva. Mas se Deus é circular e se a Natureza é proporcional, como o é o corpo humano, esse espelho doutrinário, no Sermão do demônio mudo, está engenhosamente disposto em aguda oposição ao espelho demoníaco. Como no espelho doutrinário se produz analogias por proporção, no espelho demoníaco se produz por equívocos de proporcionalidades monstruosas, “ou seja, a formulação orientada pela semelhança metafórica que evidentemente, por não ser identidade, também é diferença que introduz o duplo sentido em tudo quanto é dito”, o que faz da operação analogicamente equivocada do espelho demoníaco uma Mala affectatio ou Inconsequentia rerum ou Incoerência[iii]. Seriam as alegorias imperfeitas, acidentes[iv], artifícios, textualizações. Produzir-se-iam monstruosidades por simulação exterior da verdade.

No seu pequeno tratado de 1641, Da dissimulação honesta, Torquato Accetto, secretário dos Duques de Andria – Antonio e Fabrizio Carafa – afirma que enquanto a dissimulação nega ser aquilo que se é naturalmente, ocultando o ser sob um não-ser efêmero – o que lhe forneceria honestidade –, a simulação enverga um ser ilusório que oculta seu não-ser, a ausência de uma naturalidade[v] sob as variadas formas de máscaras, adereços e ornamentos. Assim também com a vaidade e a formosura, que são decididamente recriminadas por Vieira no Sermão do demônio mudo. Ambas resultam da simulação artificialmente forjada pelo demônio. Esse espelho maquinador de vícios humanos e artifícios reproduz, estimula e amplifica os falsos entendimentos que chegam e arrastam os homens, desvirtuando-os. Esse espelho demoníaco atrai para si os olhares que produzem falsos entendimentos de si mesmo. A vaidade dirige as ações, os gestos e cola ao humano coração um demônio resistente e astucioso na sua eloqüentemente muda beleza. A simulação produzida por esses artificiosos espelhos lisonjeia às religiosas em seus claustros e celas e aos homens nas suas casas e quartos, volta-os para um amor-próprio que Vieira classifica como “raiz de todos os vícios”[vi]. Por dissimulação, ao homem, escreve Accetto, caberia o mesmo que coube a Adão e Eva: cobrir honestamente suas naturezas, dissimulando-as com uma temporária ocultação, através de autoconhecimento, medida, prudência e discrição, voltados nesse ato para o puro entendimento de Deus.
Por uma breve reflexão topológica, vê-se que a vaidade e a formosura são alvos da argumentação de Vieira por seus traços de exterioridade, sua cumplicidade com o lado de fora da superfície à qual aquelas mulheres religiosas tão intensamente se ligavam, com tanta paixão. O demônio mudo astutamente as afetaria ao atrair para as suas próprias imagens (Malla affectatio) os apetites e as paixões daquelas mulheres, com seus olhares sensíveis e exteriormente motivados, incentivando nelas, e também nos homens, uma estranha e viciosa atração por um mundo de visibilidades mudas, porém formosas e atraentes. Perigosas seduções, pois apontariam para a existência de diferenças em um mundo e em uma linguagem que quereriam operar pelas semelhanças, similitudes e identidades. Vaidade e formosura renegariam o interior, a alma, como espaço participante da Natureza. O dentro como porção recortada do infinito, porção na qual os homens são chamados a participar, tal como participam em Deus através do mundo como uma profunda verdade a ser dialeticamente desvelada. O demônio mudo macula essa razão natural ao homem e ao mundo e os lança – portando máscaras oblíquas e superficiais – nos artifícios e efeitos exteriores da vida, no ambiente das monstruosidades que operam pelo par simpatia-antipatia. Michel Foucault define a analogia como o “fulcro das proporções”, enquanto a simpatia “é uma instância do Mesmo tão forte e tão contumaz que não se contenta em ser uma das formas do semelhante; tem o perigoso poder de assimilar, de tornar as coisas idênticas umas às outras, de misturá-las, de fazê-las desaparecer em sua individualidade – de tornar estranhas ao que eram”[vii]. A antipatia “mantém as coisas em seu isolamento e impede a assimilação; encerra cada espécie na sua diferença obstinada e na sua propensão a si”[viii]; já a simpatia cria proporcionalidades em um movimento que dá a um dos termos uma dificílima apreensão, tornando-o elíptico, monstruoso, estranho, hermético à similitude operada.

O espelho multiplicamos. Como no “Prefácio” a As palavras e as coisas, de Foucault, Jorge Luis Borges, fantasmaticamente, também vem a este texto, que se torna reflexo de reflexo, comentário de comentário, pensamento de pensamento, signo de signo, glosa de glosa – “não fazemos mais do que nos entreglosar”, como famosamente escreveu Montaigne. E vamos buscar em uma ficción borgiana, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, a mesma perspectiva e conceit
os simpáticos a certos desenvolvimentos de Vieira, só que tratados com o costumeiro desconcerto presente em um texto borgiano. Logo ao primeiro parágrafo do conto o narrador, como uma espécie de outro do escritor argentino, enquanto discute com Bioy Casares a elaboração de um romance em primeira pessoa, afirma que “do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”[ix]. A declaração do heresiarca é depois corrigida por Casares para “os espelhos e a paternidade são abomináveis (mirrors and fatherhood are abominable) porque multiplicam e divulgam [o universo]”[x]. Como na doutrina do heresiarca da Uqbar borgiana, a doutrina do Padre Vieira parece considerar os espelhos criados pelos homens por essa mesma perspectiva: de uma relação simpática entre espelhos e natureza, correspondência que simula, desvia, substitui a Natureza pela imaginação e pelo artifício, substitui o que se crê pelo que se vê, o entendimento pelo amor-próprio.

Nos espelhos embelezamos a verdade. Vieira também acusa o espelho de se valer da retórica e de suas figuras para, mudo, adular, encarecer, atrair, persuadir, deleitar e ornamentar[xi] a imaginação, que simula ser o que não é, sacia o “apetite mulheril de se verem ao espelho”[xii] e de se alimentarem de uma formosura fadada a morrer, “fundada nos ornatos de uma caveira e no esquecimento dela”[xiii]. Este engaño retoricamente forjado pelo espelho dos homens é combatido por Vieira ao propor o argumento do sacrifício das monjas em renunciar “o ver-se no espelho, não só sacrifica[ndo] a vista, senão os olhos com que se vê, (…) [pois] assim como os olhos são os espelhos da natureza, assim os espelhos são os olhos da arte”[xiv], repetindo aqui uma sentença da filosofia conimbricense. Este argumento, todavia, é seguido do contra-argumento que não deseja repetir o mesmo ato de hebréias e egípcias – que, citadas do texto do sermão, também se recusavam a se ver no espelho –, afirmando Vieira ser esta a razão que ele tem para, por outro lado, não querer “o desuso dos espelhos”. Ao contrário, “que as filhas de S. Bernardo os não deixem, mas os troquem, e que esta troca se faça vendo-se daqui por diante ao espelho não mudo, senão eloqüente; não lisonjeiro, senão verdadeiro; não do mundo, senão do céu”[xv], e termina por afirmar que o próprio patriarca da ordem das Odivellas compôs um desses espelhos, um “breve e excelente tratado, que intitulou Speculum Monachorum: Espelho de Monges – o qual começa assim: ‘Se alguém for tocado pelo desejo de emendar a vida, procurando corrigir excessos de pensamentos, de palavras e obras, contemple como em espelho, com a leitura freqüente desta página, a face de seu homem interior’”[xvi].

Com essa citação do tratado de S. Bernardo, chegamos a um ponto importante do nosso texto, pois com ela afirmamos, portanto, que a retórica também era modelo para a confecção de espelhos do céu, espelhos doutrinários. É bem conhecida a tradição dos Espelhos dos príncipes, livros de educação cortesã e de civilidade, que desde o século XIV já circulavam por Portugal, dos quais citamos o Speculum Regum, de Álvaro Pais, o Leal conselheiro, de D. Duarte, o Tratado das virtudes pertencentes a um príncipe, de Vasco Fernandes de Lucena, De institutione boni principis, de Diogo de Teive, e o famosíssimo Arte de furtar ou espelho de enganos, teatro de verdades, mostrador das horas minguadas, gazua geral dos Reinos de Portugal oferecida a El-Rei Nosso Senhor D. João IV…, Anônimo do século XVII. De onde deduzimos que as Artes Sermocinandi têm, no século XVII, uma tradição já bastante estável em considerar o ornato retórico como suplemento do conceito dialético[xvii] e o artifício como suplemento do ser natural. Roland Barthes escreve que “da inventio [retórica] partem dois grandes caminhos: um lógico, outro psicológico: convencer e comover”[xviii]. Malgrado o barthesiano (leia-se: saboroso) anacronismo de “psicológico”, o teórico da escritura está certíssimo e é endossado por, ou melhor, endossa Baltasar Gracián, contemporâneo de Vieira e também jesuíta, que escreve no seu tratado poético-retórico que “lo que es para los ojos la hermosura y para los oídos la consonancia, esso es para el Entendimiento el Concepto”[xix]. Em Vieira tal perspectiva é trespassada permanentemente por uma poderosa vontade de afirmar uma Fé inabalável, conduzindo e sendo conduzida por esses “dois grandes caminhos”. Novamente no Sermão da Sexagésima, em que afirma ser o pregador o “espelho da doutrina”, Vieira conclui que a ineficácia da pregação “é porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus (…) As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse são palavra de Deus, mas pregadas no sentido em que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do demônio”[xx]. Um erro de Fé para o pregador é ao mesmo tempo uma falha retórica. E vice-versa. Portanto, a vaidade e a formosura provenientes do espelho não são forças exteriormente demoníacas, mas funções de um mau entendimento da verdade e de uma má disposição (dispositio) das palavras (de Deus) no discurso. A força argumentativa do discurso corresponde a uma poderosa crença em Deus, assim como uma Fé poderosa nas palavras de Deus remete a uma invencível eloqüência persuasiva – “a boa exterioridade é a melhor recomendação da perfeição interior”[xxi]. Os sermões-espelhos de Vieira se correspondem com a Natureza e lhe reproduzem o Ser infinito por um processo retórico que prolonga sua materialidade exterior pelo interior de uma alma fiel, na qual a Fé do pregador participa do engenho divino refletido nos espelhos-sermões que encenam sendo.

NOTAS
[i] Padre Antonio VIEIRA, Sermão do demônio mudo, pp. 119-20.
[ii] Id, Sermão de Nossa Senhora do Ó, pp. 293-4, vol 3.
[iii] Cf. João Adolfo HANSEN, Alegoria, pp. 30-4.
[iv] Cf. Santo Tomás de AQUINO, Sobre a diferença entre a palavra divina e humana. São Paulo, Edições GRD, 1993, que escreve que “o termo que nosso intelecto forma não é da essência da alma, mas apenas seu acidente”, p. 23.
[v] Cf. Torquato ACCETTO, Da dissimulação honesta. São Paulo, Martins Fontes, 2001 [1641], pp. 07-16.
[vi] Padre Antonio VIEIRA, Sermão do demônio mudo, p. 119.
[vii] Michel FOUCAULT, As palavras e as coisas. 6 ed. São Paulo, Martins Fontes, 1992, pp. 39-40.
[viii] Id, ibid, p. 40.
[ix] Jorge Luis BORGES, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Ficções. 6 ed. São Paulo, Globo, 1995, p. 29.
[x] Id, ibid, p. 30.
[xi] Cf. Padre Antonio VIEIRA, Sermão do demônio mudo, p. 121.
[xii] Id, ibid, p. 126.
[xiii] Id, ibid, p. 127.
[xiv] Id, ibid, p. 128.
[xv] Id, ibid, p. 135.
[xvi] Id, ibid, p. 135. A citação de S. Bernardo no corpo do texto está no original latino. A tradução usada foi retirada da nota de rodapé da edição usada.
[xvii] Cf. João Adolfo HANSEN, Pós-moderno e barroco, In. Cadernos do Mestrado. Rio de Janeiro, IL-UERJ, n. 8, 1994, escreve que “o ornato nunca se dissociava da sua função: como ornato dialético ou silogismo retórico”, p. 37.
[xviii] Roland BARTHES, A retórica antiga, In. COHEN, J. et alli. Pesquisas de retórica. Petrópolis, Vozes, 1975, p. 184.
[xix] Baltasar GRACIÁN, Arte de ingenio, tratado de la agudeza. Madrid, Cátedra, 1998 [1642] (Ed. Emilio Blanco), p. 138.
[xx] Padre Antonio VIEIRA, Sermão da Sexagésima, pp. 48-9.
[xxi] Baltasar GRACIÁN, A arte da prudência. São Paulo, Martins Fontes, 2001 [1647], p. 89 [aforismo CXXX].

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