VIDA, ORDINÁRIA

levá-la com a leviandade e a leveza
que fazem do corpo porto iminente
levá-la com a roupa suja do lodo
levá-la com a pele suada do ócio
levá-la com a barba grande da tosse
levá-la com as sarnas inda feridas
e um veneno vertido em folhas frias

levar a vida com as unhas roídas
levar a vida com a virilha assada
levar a vida ardida sobre a língua
levá-la a torto e a direito, e voar
ao céu da boca infinita de orfeu
levar a vida varando esse inferno
levá-la à rimbaud, levá-la à al berto
levá-la à piva, faustino, waly
levá-la pra ali, levá-la pra aqui
e quieto a um canto do quarto cair

levá-la valendo cada vintém
levá-la tremendo a cada desdém
levá-la provando amores azuis
levá-la amando o seu próprio destino
levá-la puxando as cordas dos sinos
que chamam exu e espalham o axé
levar a vida sobre, entre, através

pelos pés e pelos dedos feridos
pelas pistas de dança, pelos ritos
pelas praias de desejos trazidos
lavar a vida ao delírio da luz
levar a vida ao solo desolado
levar a vida à praça aberta e olhar
com os olhos vidrados, cheios de mar
que uma vida é uma onda prima e última
vangloriar-se de vê-la vida múltipla
volvida do fim ao seu próprio início
mítica cobra a si mesma engolindo

(do livro inédito Trabalhos do corpo)

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